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“Vozes que Protegem” apresenta trabalho do CRAM no enfrentamento à violência em Campinas
Em entrevista à Rádio e TV Fé e Luz, a psicóloga Fernanda Torres explicou como reconhecer sinais de maus-tratos, destacou a importância da escuta qualificada e apresentou os caminhos para denunciar violações de direitos
Por André Moreira Augusto
Publicado em 07/09/2026 16:33
Novidades

A Rádio e TV Fé e Luz iniciou a série de entrevistas “Vozes que Protegem”, dedicada à apresentação da rede de enfrentamento à violência na região de Campinas. Em um dos primeiros programas, o apresentador André Augusto recebeu a psicóloga Fernanda Torres para falar sobre o trabalho do Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância, o CRAM.

Com mais de 40 anos de atuação em Campinas, o CRAM acompanha crianças, adolescentes, adultos e pessoas idosas que vivenciaram diferentes formas de violência ou violação de direitos. A instituição começou com um trabalho direcionado principalmente a crianças vítimas de violência sexual, mas ampliou sua área de atuação ao longo das décadas.

Atualmente, o serviço atende pessoas de todas as faixas etárias e trabalha não apenas com o indivíduo diretamente atingido, mas também com sua família e com os diferentes equipamentos que formam a rede de proteção.

Fernanda Torres explicou que o CRAM é uma Organização da Sociedade Civil, e não um órgão público composto por servidores municipais. A instituição executa serviços socioassistenciais em parceria com a Prefeitura de Campinas.

Série apresentará a rede de proteção

A criação de “Vozes que Protegem” foi motivada pela necessidade de divulgar os serviços disponíveis para mulheres, crianças, adolescentes e outras pessoas em situação de vulnerabilidade.

A proposta é entrevistar representantes de instituições públicas e organizações parceiras, explicando o papel de cada uma no acolhimento, na prevenção e no rompimento dos ciclos de violência.

Entre os serviços mencionados está o Serav, iniciativa da Prefeitura de Campinas voltada ao acompanhamento de homens autores de violência. Para os participantes da entrevista, trabalhar somente com as vítimas não é suficiente: também é necessário desenvolver ações que responsabilizem os agressores e promovam mudanças de comportamento.

Esse conjunto de iniciativas demonstra que o enfrentamento à violência depende da participação coordenada de profissionais da assistência social, saúde, educação, segurança e Justiça, além do envolvimento responsável de familiares e da própria comunidade.

Famílias chegam por encaminhamento

O atendimento realizado pelo CRAM normalmente começa por meio de um encaminhamento do Centro de Referência Especializado de Assistência Social, o CREAS. Isso significa que muitas famílias não chegam espontaneamente ao serviço.

Fernanda explicou que o início do acompanhamento pode ser marcado por receio, resistência ou sentimento de julgamento. Algumas famílias carregam um estigma construído ao longo de anos de conflitos, vulnerabilidades e contatos difíceis com diferentes instituições.

Por esse motivo, os profissionais procuram desenvolver uma abordagem ética e respeitosa. O objetivo não é impor regras ou tratar a família apenas como responsável por um problema, mas compreender as relações, identificar necessidades e construir possibilidades de mudança em conjunto.

O acompanhamento tem duração mínima de seis meses e envolve uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, assistentes sociais e educadores sociais. Cada equipe de referência acompanha aproximadamente 30 famílias.

Segundo as informações apresentadas na entrevista, o CRAM possui duas unidades, localizadas no Jardim Garcia e na Vila Brandina, e atende cerca de 210 famílias em Campinas.

Mudanças de comportamento podem indicar violência

A violência nem sempre deixa marcas físicas visíveis. Alterações repentinas de comportamento, isolamento, variações intensas de humor e perda de interesse pelas atividades cotidianas podem indicar que algo não está bem.

Em alguns casos, o sofrimento também aparece no corpo, por meio de problemas gastrointestinais, alterações na pele, dores recorrentes ou outros sintomas sem uma explicação imediatamente identificável.

Quando existe suspeita de violência sexual contra crianças, comportamentos ou falas sexualizados e incompatíveis com a idade também merecem atenção. Esses sinais, isoladamente, não confirmam uma situação de abuso, mas indicam a necessidade de uma avaliação cuidadosa por profissionais preparados.

Fernanda afirmou que, segundo os dados apresentados durante a entrevista, aproximadamente 75% dos casos de violência sexual são cometidos por pessoas conhecidas da vítima. A informação reforça a necessidade de abandonar a ideia de que o perigo está somente em pessoas desconhecidas.

A proximidade do possível agressor pode dificultar a revelação. A vítima pode sentir medo, vergonha, culpa ou preocupação com as consequências para a própria família. Também pode depender emocional ou financeiramente da pessoa responsável pela violência.

Escuta precisa ser cuidadosa e sem julgamentos

Saber ouvir é uma das principais ferramentas de proteção. Crianças e adolescentes nem sempre conseguem descrever diretamente o que aconteceu. O sofrimento pode aparecer em desenhos, brincadeiras, mudanças na fala ou alterações no comportamento escolar.

Ao perceber algo diferente, adultos responsáveis devem demonstrar disponibilidade e acolhimento, sem pressionar, ameaçar ou colocar palavras na boca da criança. Uma escuta conduzida de forma inadequada pode aumentar o medo e dificultar o trabalho posterior dos profissionais especializados.

Fernanda defendeu uma escuta ativa, qualificada e livre de julgamentos. A pessoa deve sentir que sua palavra está sendo levada a sério e que não será responsabilizada pela violência sofrida.

Também é importante evitar interrogatórios repetidos. Depois de acolher a revelação ou perceber sinais preocupantes, o adulto deve procurar a rede de proteção para que o caso seja analisado e acompanhado adequadamente.

Escola ocupa posição estratégica

Por acompanhar crianças e adolescentes durante grande parte do dia, a escola ocupa uma posição fundamental na identificação de possíveis violações.

Professores, educadores e demais profissionais podem perceber mudanças de comportamento, queda repentina no rendimento, faltas frequentes, medo de determinadas pessoas ou alterações na forma como o aluno se relaciona com colegas e adultos.

A prevenção também passa por uma educação adequada à idade sobre consentimento, autonomia, respeito e proteção do próprio corpo. Na avaliação apresentada durante a entrevista, abordar esses temas não significa antecipar experiências, mas oferecer informações que ajudem crianças e adolescentes a reconhecer limites e procurar ajuda.

A formação dos profissionais deve contribuir para que as suspeitas sejam tratadas com seriedade, evitando tanto a omissão quanto abordagens precipitadas que possam ampliar o sofrimento da vítima.

Meninos e homens também enfrentam violência

A entrevista ressaltou que a violência também atinge meninos e homens. Estereótipos relacionados à masculinidade podem impedir que vítimas procurem ajuda ou relatem o que sofreram.

Expressões que associam masculinidade à obrigação de suportar a dor em silêncio contribuem para a subnotificação. Algumas vítimas temem não ser acreditadas, ser ridicularizadas ou ter sua identidade questionada.

Para Fernanda, a rede de cuidado deve estar preparada para acolher pessoas de todos os gêneros, respeitando as particularidades de cada situação e reconhecendo que qualquer pessoa pode sofrer violência.

Proteção depende de uma rede intersetorial

Nenhuma instituição consegue enfrentar sozinha todas as dimensões de uma situação de violência. Por isso, o trabalho do CRAM envolve articulação com serviços como CRAS, CREAS, unidades de saúde e Conselho Tutelar.

Cada setor possui uma responsabilidade específica. A assistência social acompanha vulnerabilidades e relações familiares; a saúde cuida das consequências físicas e emocionais; a educação ajuda a identificar mudanças; e os órgãos de proteção e responsabilização adotam as medidas previstas para cada caso.

O compartilhamento responsável de informações e a comunicação entre esses serviços são fundamentais para evitar que a vítima precise repetir seu relato inúmeras vezes ou percorra diferentes instituições sem receber uma resposta adequada.

Disque 100 recebe denúncias gratuitamente

Qualquer pessoa que tenha conhecimento ou suspeite de uma violação de direitos humanos pode procurar ajuda. O Disque 100 funciona gratuitamente durante 24 horas por dia, inclusive aos sábados, domingos e feriados.

As denúncias podem ser realizadas pela própria vítima ou por alguém que tenha conhecimento da situação. O serviço recebe, analisa e encaminha os relatos aos órgãos competentes. Também é possível fazer uma denúncia anônima e acompanhar o encaminhamento por meio do número de protocolo. As informações oficiais estão disponíveis no portal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Além do telefone, os moradores podem procurar orientação nos centros de saúde, nos CRAS e nos demais serviços de referência existentes nos bairros. Em situações de risco imediato, os serviços de emergência e segurança devem ser acionados.

Informação pode chegar a quem precisa

André Augusto incentivou o público a utilizar as redes sociais também como instrumentos de proteção. Compartilhar informações corretas sobre canais de denúncia e serviços de acolhimento pode ajudar uma vítima que ainda não consegue falar abertamente sobre o que está enfrentando.

O CRAM utiliza o Instagram para apresentar suas atividades e divulgar informações relacionadas à proteção social. Mesmo uma publicação compartilhada indiretamente pode alcançar uma pessoa que precisava conhecer determinado serviço.

Ao encerrar a entrevista, Fernanda Torres e André Augusto reforçaram que cuidar, escutar e proteger são atitudes capazes de transformar histórias e salvar vidas.

 

A série “Vozes que Protegem” continuará apresentando instituições e profissionais que integram a rede de enfrentamento à violência em Campinas. O objetivo é mostrar que a proteção não depende apenas de órgãos especializados: ela começa quando a sociedade decide observar, acreditar, acolher e não permanecer indiferente diante de uma possível violação.

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